Sim sim sim
Três vezes sim
Semana passada, falei do quanto um artista sai do completo e pobre anonimato ao glamour do sucesso (Mister Bob Dylan que o diga, say you), e como isso o transforma numa pessoa, diga-se, irreverente, para não dizer cuzona. Mas é só de vez em quando. E posso dizer que essa mutação: é uma dança diferente.
Pois bem. Esta semana gostaria de falar de nós: aqueles que fazem o artista crescer. O público. Muito se fala na internet, por aí, o quanto a arte nos transforma, molda, muda, reflete e espelha a sociedade. Sim sim sim. Três vezes sim. A arte. Ela. É uma Deusa absoluta. A arte pode mudar o nosso tempo, a nossa sociedade. A arte não serve para porra nenhuma. Nós, aqueles que consomem a arte, lambuzamos os artistas até eles sentirem nossa língua áspera em seu corpo. Defendemos o artista com unhas e dentes, mesmo que sua índole seja algo deplorável.
Este texto só está sendo escrito depois que li a fala de Wim Wenders dizendo que o cinema está do lado oposto da política. Sim sim sim. Três vezes sim. Meu querido Wim Wenders. Paris, Texas. Veja só. É um filme sobre a cor rosa. Dias Perfeitos nunca fez tanto sentido como agora. É um filme sobre limpar merda. Veja só. O artista pode fazer o que quiser, falar o que bem entender, que uma parte de seus fãs irá apoiá-lo. O artista nunca ficará só; sempre sobrará alguém ao seu redor. A sociedade é que constrói bustos dourados. O artista, de tanto ouvir que é foda, diz “foda-se” para quem quiser. Lembrei do Justin Bieber cuspindo nas fãs de uma sacada, aqui no Brasil. Lembrei da Taylor cagando para a fã que morreu no Rio, nenhuma citação em seu documentário. Lembrei também das pessoas que idolatram políticos como o Bolsonaro, um assassino da arte.
Gostar da arte e não do artista é algo que precisamos desenvolver. Seu artista vai te decepcionar, porque pessoas decepcionam. E adivinha quem são pessoas iguais a você? Sim sim sim. O artista. Gosto muito, sou fã do Raul Seixas. Ele, Raul, era uma pessoa difícil de conviver; deveria ser legal para quem participava, uma vez ou outra, de uma farra com ele, mas para quem o aguentava em casa fedendo a cachaça TODOS OS DIAS, devia ser ruim. Não acha?
Lembrei de um programa lá da TV Ceará, do Ricardo Guilherme (Diálogo). Ele estava com uma convidada, não irei lembrar o nome, isso faz mais de vinte anos. A convidada dizia que era muito fã de Fausto Nilo, elogiava o arquiteto e compositor; passaram uns dez minutos falando da importância de Fausto para o Ceará e para o Brasil. Eis que Ricardo diz que Fausto estava na linha telefônica. A mulher diz que não quer falar com ele. Fausto e Ricardo não entendem o que está acontecendo. A mulher diz que não se deve falar com os seus ídolos; isso enferruja a admiração. Fausto desliga. Ricardo Guilherme não fala mais nada. Na época, eu não tinha entendido muito bem; hoje, sim, entendo o que aconteceu e faço este mesmo exercício.
O distanciamento é a única ferramenta que nos resta para preservar a integridade do que é sentido diante da tela ou do palco. Quando a mulher do programa de TV se recusou a atender o telefone, ela não estava desprezando o homem Fausto Nilo, mas protegendo o semideus que habitava sua vitrola. O contato direto, o suor, o hálito de café ou a opinião política rasteira do ídolo são ácidos que corroem a mística. Precisamos entender que o artista é só um conduíte, muitas vezes sujo e entupido, por onde passa algo divino. Se você resolve olhar muito de perto para o cano, acaba esquecendo a água pura que saiu de lá e foca apenas no lodo que ficou pregado na parede do metal.
É preciso uma certa frieza, quase cirúrgica, para separar a obra do CPF de quem a assina. Se formos esperar a santidade para consumir beleza, morreremos de fome intelectual ou cercados por uma arte medíocre, higienizada e covarde. O mundo está cheio de gente canalha que pintou Capelas Sistinas e de sujeitos admiráveis que não conseguem rimar “amor” com “dor” sem passar vergonha. Que o artista cuspa da sacada, que se lambuze no próprio ego ou que ignore a tragédia alheia; isso é o humano, demasiadamente humano, sendo podre. O que nos cabe é o usufruto do que resta quando a luz do refletor apaga: a obra, imóvel, que já não pertence mais a quem a criou, mas a quem, do lado de cá, teve a coragem de ser transformado por ela. Se você quer manter o seu ídolo intacto, não o convide para um café, não vá ao seu camarote. Deixe que ele more no fone de ouvido, no projetor de cinema, nos livros ou no museu, onde o feio se torna estética e o podre se faz transcendência. No fim das contas, a arte é a única mentira que nos diz a verdade, enquanto o artista é só mais uma verdade que teima em nos mentir. Fiquemos com a obra, que é o que sobrevive ao enterro, ao escândalo e ao esquecimento. O resto é apenas o lodo no cano, o hálito de cachaça e o barulho de um telefone que, por pura sanidade, decidimos não atender. Sim sim sim. Três vezes sim.

